Vitimização Policial | "A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original." (Einstein).

Mais um acontecimento envolvendo a insegurança pública no Rio de Janeiro, mais uma vez vemos a sociedade atônita com tais fatos, e o poder público a reboque deles, a procura de um arremedo para o estrago, que com a conquista dos Jogos Olímpicos toma proporções bem maiores.

Não foi o primeiro incidente envolvendo aeronaves no Rio de Janeiro, Estado que devido a sua topografia foi pioneiro no uso de helicópteros na segurança pública. No final da década de 80, a Polícia Civil teve uma de suas aeronaves abatidas na favela do Juramento, quando então foi adotado o modelo Esquilo para suas ações aerotáticas. E no ano de 2007, outro policial morreu em circunstâncias bem parecidas: Eduardo Demoro Hamilton foi vítima de um tiro de fuzil enquanto integrava equipe policial que apoiava o cumprimento de uma execução judicial no Morro do Adeus.

A escala da violência é uma crescente no Brasil. Não há consenso sobre sua origem, nem como sobre estancá-la. Mas já não é sem tempo da sociedade visualizar que a solução do problema perpassa por cargos ou por nomes. Não será um oficial-general Fulano, um juiz Cicrano ou um delegado Beltrano, quem solucionará o problema. A saída está no enfrentamento de um modelo fracassado, concebido pela Constituição Federal de 1988 atendendo a lobbies, o que fez da segurança pública brasileira uma colcha de retalhos.

Nos principais modelos de policiamento adotados em todo o mundo, as polícias realizam o ciclo completo. Não há a dicotomia aqui criada, o que por diversos motivos dificulta e muito a atuação policial. A polícia que patrulha é a mesma que investiga, sendo apenas funções diferentes.

Não existe no mundo concurso público para a figura do condutor da investigação, criação da era pós-feudal onde a atuação policial era exercida por um magistrado, e que foi abolida no século XVIII nos países europeus, mas que é mantida aqui única e exclusivamente por força de movimentos das categorias que são favorecidas por este modelo, em verdadeira manutenção de castas. Uma investigação cartorária onde um servidor determinaria detrás de sua confortável mesa os rumos da investigação, burocratizada e lenta, com ofícios e interrogatórios agendados, onde o investigado tem tempo de sobra para discutir e acordar com seus pares as respostas que serão dadas. Diz-se “pseudo condutor” porque de fato quem norteia os rumos do trabalho é aquele que detém conhecimento dos meandros da atividade multi-disciplinar chamada investigação criminal. Ou alguém acredita ser possível uma pessoa ter sob sua responsabilidade cerca de 300 investigações simultaneamente? A sociedade tem aí um trabalho profícuo ou trata-se apenas de um faz-de-conta?

De acordo com o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, nos últimos 04 anos entre desaparecidos e mortos foram mais de 24 mil pessoas. Estima-se uma taxa de elucidação de 5% nos crimes de homicídio. Ou seja, o atual modelo investigativo solucionou apenas 1.200 casos, fazendo com que o crime efetivamente compense.

A despeito de tais vícios, o Rio de Janeiro é também o Estado da Federação que paga um dos piores salários aos profissionais de segurança pública. A relação entre o valor pago a um profissional e o serviço por ele prestado é incontroverso. Pague 30,00 ou 300,00 a uma diarista ou a um motorista, por exemplo, e haverá uma relação direta entre a mão-de-obra que você irá recrutar e o serviço que ela executará.

A União nunca investiu tanto em segurança pública como o faz agora. Todavia, levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas apurou que 14 de 21 estados não utilizaram a verba destinada pelo Ministério da Justiça para segurança pública. O Estado do Rio de Janeiro, especificamente, só usou 24,2% dos recursos disponíveis para a área no corrente ano. Se ampliado para os últimos 03 anos, foram utilizados 39% do total que havia para ser aplicado. Não há milagre, nem santo: a fórmula implica em investimentos, e pesados, para sanar o passivo que existe no descaso como o tema historicamente foi tratado.

Ainda assim, a prioridade nos investimentos vem sempre através dos contratos, as famigeradas licitações, como as que objetivam a locação de viaturas ou compra de helicópteros blindados. Nunca no investimento em seu mais sagrado recurso, o material humano. Para remunerar o homem, o Estado alega não dispor de meios, criando paliativos como a “bolsa Pronasci” que contempla o salário do policial que se matricula em curso de ensino a distância do Ministério da Justiça. Não parece que seja o que irá resolver a questão.

A mudança não está no governante A ou B, nem no corpo policial, mas no seio da sociedade que deve clamá-la exercendo legitima manifestação sobre os poderes constituídos.

Marcelo Pasqualetti é bacharel em direito, especialista em Limites Constitucionais da Investigação no Brasil (UNISUL) e Ciências Criminais (UCAM), ocupando o cargo de agente de polícia federal.

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Dois policiais militares morreram, um capitão foi baleado na perna e outros dois sofreram queimaduras, mas não correm risco de vida, em consequência da queda de um helicóptero da Polícia Militar (PM) na Vila Olímpica do Sampaio, nas proximidades do morro do Sampaio, na zona norte do Rio de Janeiro. Segundo testemunhas, o helicóptero foi atingido hoje por tiros de traficantes. O piloto ainda conseguiu fazer um pouso forçado numa quadra de futebol, mas a aeronave pegou fogo e ficou completamente destruída.

Desde a noite de ontem, traficantes travam um intenso tiroteio na disputa pelos pontos de drogas no morro dos Macacos, em Vila Isabel, também na zona norte da cidade. Durante a madrugada, pelo menos duas pessoas morreram nos confrontos. Elas foram encontradas dentro de um carro Peugeot em uma das ruas de acesso à favela. De acordo com a PM, 120 policiais realizam operação no local.
Fonte: Agência Estado.

É o típico e emblemático caso de vitimização primária que atinge aqueles que servem ao Estado na carreira policial! As consequências para os familiares, que são também objetos de estudo da Vitimologia, provavelmente não serão reparadas, nem sequer lembradas pelas diversas ONG´s que se preocupam com as questões referentes à vitimização em geral.

Quem cuida dos policiais mortos e desuas famílias?

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“David Bayley, em seu livro Padrões de Policiamento1, busca analisar as relações entre a polícia e sociedade na história dos homens. A questão fundamental se refere à forma como a polícia afeta a sociedade, e vice-versa. O autor considera que a polícia não é uma invenção moderna. Ao contrário, a maioria dos países, nos mais variados momentos históricos, têm encontrado maneiras de manter a ordem pública e garantir as leis, utilizando a força de trabalho de policiais pagos com dinheiro público. ”

Leia a íntegra deste excelente artigo de Iselda Corrêa Ribeiro, Doutora em Sociologia, no link ARTIGOS.

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Dois policiais militares, que faziam segurança do presidente da Cedae, Wagner Victer, foram mortos na noite desta terça-feira, no Engenho de Dentro, Zona Norte. Os sargentos João Rodrigues Russo Neto, 55 anos, e José Roberto Santos de Oliveira, 52, foram baleados na esquina das ruas São Braz e Conselheiro Agostinho. Segundo testemunhas, o crime foi praticado por quatro homens em um Gol prata.

O crime ocorreu por volta das 22h. Os policiais estavam em um Toyota Corolla preto e haviam deixado o presidente da Cedae na casa dele. Segundo testemunhas, os assaltantes impediram a passagem dos policiais, desceram do carro e efetuaram os disparos.

De acordo com testemunhas, os policiais tentaram reagir, mas foram baleados. Um deles foi atingido ao lado do veículo, e o outro na calçada. O carro, blindado, não chegou a ser perfurado. Os sargentos foram socorridos por bombeiros e levados para o Hospital Salgado Filho, no Méier, mas não resistiram aos ferimentos.

Após os disparos, os assaltantes fugiram. Eles abandonaram o Gol prata na esquina das ruas Vinte e Quatro de Maio com Marechal Bittencourt, no Riachuelo. Segundo a polícia, as armas dos militares foram levadas pelos criminosos.

O delegado adjunto da 25ª DP (Rocha), central de flagrantes, Franco Albano, disse que o crime foi praticado por uma quadrilha especializada em roubo de carros na região.

- Os bandidos roubam o veículo e usam o carro para praticar outro assalto. Os criminosos podem roubar de cinco a seis veículos por noite – explicou.

Franco Albano não acredita que os policiais tenham sido vítima de emboscada. As armas dos militares não foram encontradas.

- Não há indício de que o crime tenha sido encomendado. Foi uma infeliz coincidência – afirmou.

Segundo o delegado, o crime foi registrado como latrocínio duplo consumado – apesar do carro não ter sido roubado, as vítimas foram mortas, o que caracteriza o latrocínio. O caso será investigado por policiais da 26ª DP (Todos os Santos).

De acordo com a assessoria de imprensa da Cedae, os policiais trabalhavam com Wagner Victer há dez anos.

Artigo publicado no O Globo on-line, em 16/09/2009.

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Pesquisa inédita realizada a pedido do Ministério da Justiça (MJ) deu voz aos policiais brasileiros e encontrou altos índices de insatisfação com o modelo de gestão da segurança nacional, além de números que revelam condições de trabalho preocupantes. Foram ouvidos 64.130 homens das polícias Civil e Militar, do Corpo de Bombeiros, da Guarda Civil e agentes do sistema penitenciário.

Um em cada cinco afirmou já ter sido torturado em serviço e mais da metade (53,9%) disse ter sofrido humilhações de superiores. Uma parcela ainda maior, 72,2%, reconheceu que há mais rigor com as questões internas – como exigir botas perfeitamente engraxadas – do que com fatores que afetam, de fato, a segurança pública.

O estudo entrevistou os participantes com a aplicação de questionários virtuais entre abril e maio. Os pesquisadores, ligados ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, identificaram que 69,8% de cabos, praças, sargentos, delegados, agentes e oficiais querem mudanças no modelo institucional e, na avaliação dos autores, a origem das reivindicações está atrelada também à vitimização da profissão, mapeada de forma pioneira na enquete.

Um dos dados encontrados é que 20,5% sofreram tortura. Apesar do questionamento sobre a utilização dessa prática não ter contemplado só agressão física mas também tortura psicológica, a pesquisa ressalta que não pode ser desconsiderado que a violência é ainda um “instrumento pedagógico” nas instituições policiais. Os pesquisadores ressaltaram que “o sofrimento mental pode ter inflacionado o porcentual de respostas afirmativas, no entanto, essa teoria é enfraquecida porque no mesmo questionário foi abordado quantos deles sofreram humilhação”, o que seria só assédio verbal. Nesse caso, o índice encontrado foi muito maior: 53%.

Ponto de partida

Regina Mikki, diretora da Secretaria Nacional de Segurança Pública, ligada ao MJ, disse os dados encontrados “servirão de ponto de partida para a criação de grupos de trabalho para aperfeiçoar a condição de trabalho das polícias”. O secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, acredita que os indicadores servem para sustentar o debate prático, e não só acadêmico, da necessidade de mudança.

Fonte: O Estado de S. Paulo.

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A Observação Social Sistemática – OSS é uma técnica de observação que tem sido empregada em várias modalidades de pesquisa sobre o crime (Sampson & Raudenbush, 1999) e sobre o trabalho policial, em outros países. Neste último caso, Reiss (1971) foi o primeiro a empregar esta técnica, em 1968, para estudar o uso da força excessiva pela polícia de Boston, nos encontros com o público.

A diferença entre a OSS e as demais técnicas de observação direta é a sistematização dos dados observados. A ferramenta usada – um questionário, que permite a precisão e confiabilidade dos dados.

Outra característica é a observação do fenômeno em seu ambiente natural, ou seja, na atividade operacional, o policial é observado realizando suas tarefas sem saber que está sendo observado.

Portanto, a observação não é participante. Isso também contribui para a confiabilidade dos dados, pois toda pessoa ao saber que está sendo observada tende a perder a naturalidade em suas ações.

O questionário usado para sistematizar a observação, pode ser aplicado durante a observação ou depois dela. No primeiro caso, é necessário um número maior de observadores para não perder o registro de nenhum dado. No outro, a observação é registrada por meio de fotos ou vídeo e posteriormente as imagens são codificadas. Esta forma é mais segura no que diz respeito à precisão dos dados, no entanto, expõe o observador durante as filmagens e coloca em risco a pesquisa, no caso dos policiais perceberem que estão sendo filmados, o que aumenta o grau de dificuldade da aplicação da técnica.

Essas filmagens têm uma única finalidade – a composição de uma base de dados por meio da codificação das condutas identificadas nas imagens, cujo resultado final é muito parecido com o de um survey. O observador (codificador) tem um papel similar ao do entrevistador, no entanto, ao invés de formular as perguntas ao entrevistado, busca as respostas nas imagens. Essa medida garante o direito de imagem do policial, pois em nenhum momento ela será utilizada de forma que o exponha.

Embora as atividades policiais sejam realizadas no espaço público, a observação por meio de filmagens esbarra no problema da autorização da captação de imagens, que neste caso não pode ser dada pelo observado, pois comprometeria o resultado do estudo. Por isso, a legitimação da pesquisa depende da autorização dada pela instituição, liberando o acesso ao cotidiano do policial, por meio da observação direta, porém sigilosa.

Em minha pesquisa de mestrado – O Uso da Força Não-Letal pela polícia nos Encontros com o Público, desenvolvida no Departamento de Ciência política da USP, tive a oportunidade de aplicar a técnica da OSS para observar a abordagem policial, na cidade de São Paulo. Foram registradas em vídeo 19 ações policiais, realizadas com quatro policiais e duas viaturas, com duração aproximada de 40 minutos, ocasião em que abordavam, em média, 5 veículos, entre carros e motos. Esses veículos e seus ocupantes eram vistoriados. Dessas ações resultaram 90 abordagens que foram codificadas por meio de um questionário com 96 perguntas.

Para ilustrar transcrevo uma questão: Q61) Durante a busca pessoal o policial manteve sua arma no coldre? Sim..|1|; Não..|2|. A análise dos dados relativos a essa questão indica que, na amostra coletada, em 80% dos casos o policial manteve a arma no coldre durante a busca pessoal. Embora este seja um percentual alto, é importante dizer que nos 20% restante ele colocou-a em lugar diverso (geralmente na parte da frente da cintura, entre o cinto e a calça) ou a manteve na mão. Esta conduta tanto pode aumentar sua própria exposição ao risco como levá-lo à uma prática abusiva.

O questionário usado nesta pesquisa foi criado com base nos Procedimentos Operacionais Padrão (POP) de abordagem, implementados pela polícia Militar do Estado de São Paulo em 2002 e revisados em 2006. Os POP têm como principal preocupação elevar a segurança do policial durante as abordagens, que é, antes de tudo, uma situação de risco para esse profissional e também diminuir a possibilidade de práticas abusivas. Além disso, quando os procedimentos padronizados são observados, principalmente no que se refere à busca pessoal e à vistoria do veículo, aumenta a probabilidade de prevenção de crime, pois é maior a chance de se encontrar uma arma ou drogas, por exemplo. Caso não sejam seguidos, o policial poderá deixar de vistoriar compartimentos do veículo ou parte do corpo da pessoa onde poderão estar escondidos esses objetos.

Os resultados da análise demonstram a tendência dos policiais em ignorar as condutas seguras previstas pelo POP durante a abordagem. Essa constatação pode não surpreender, principalmente para quem vive o meio policial, no entanto, essa pesquisa foi capaz de criar uma medida de abordagem policial, que indicam quais as condutas individuais mais preocupantes e as conseqüências possíveis, apontando a direção que devem ser encaminhados os esforços para aprimorar o desempenho operacional.

O desenho da pesquisa permite que ela seja replicada, tanto em outra localidade do estado de São Paulo, como em outros estados ou países.

A ação policial em desacordo com o POP, durante a abordagem, pode levar o policial a cometer abusos sim, como é previsto pelo senso comum, porém em grau muito inferior ao resultado mais grave, apontado pela pesquisa, que é a elevada exposição ao risco a que ele próprio se submete.

Artigo de autoria de Tânia Maria Pinc, Capitão da polícia Militar do Estado de São Paulo. Mestre e Doutoranda em Ciência política – Universidade de São Paulo/USP. Desenvolve pesquisas sobre: o uso da força pela polícia nos encontros com o público; abordagem e treinamento policial. Coordenadora do Curso de Gestão Local da Segurança Pública – Oficina Municipal. Pesquisadora do NUPPs/USP.

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Procuradora questiona seleções da PF e da PRF, em que não há espaço para quem tem necessidades especiais

Por causa disso, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte (MPF/RN) ajuizou, na sexta-feira passada, junto à Justiça Federal, uma ação civil pública contra a União para garantir a reserva de 5% das vagas no concurso da polícia Federal e em todos os outros concursos da área policial. A ação foi encaminhada em caráter de urgência, já que as inscrições da PF se encerram hoje.

“As qualificações que são exigidas, no caso, são estritamente de caráter técnico, quais sejam, conhecimentos da área de informática e tecnologia, perfeitamente desempenháveis por uma pessoa portadora de deficiência de locomoção, por exemplo”, explica a procuradora regional dos Direitos do Cidadão do Rio Grande do Norte, Caroline Maciel. O documento defende que muitas atividades desenvolvidas pela polícia têm caráter intelectual, interno e administrativo, como casos como investigações de crimes praticados através da internet, crimes financeiros e também os famosos “crimes de colarinho branco”, que não exigem força física.

“A lei é clara e inequívoca. A proteção legal dada aos portadores de deficiência é explicita e se baseia na garantia da inclusão social e do tratamento isonômico que deve ser dado a esse grupo de pessoas”, justifica Caroline Maciel. O pedido do MPF/RN ainda inclui a possibilidade de se adaptar a prova de avaliação física e prática para os candidatos que assim necessitarem. Para tanto, o edital deve designar uma equipe multiprofissional.

Matéria publicada no jornal Diário de Natal.

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Quando se fala em vitimização policial, deve-se ter em mente a condição profissional sui generis em que está inserido o servidor público desta carreira. Nesta seara, há sempre que se destacar, além da notória vitimização primária que atinge os policiais em ações de confrontos armados, a existência de uma forte vitimização secundária decorrente de um etiquetamento de tais pessoas.

A Teoria criminológica do Labeling Approach, que trata exatamente do fenômeno criminológico sob o enfoque de uma abordagem da rotulação dos atores no cenário social e a relação desta rotulação, deste etiquetamento, com a gênese criminosa. Em termos breves, pode-se descrever o etiquetamento como aquele fenômeno pelo qual uma pessoa que delinqüe, passa a ser rotulada pela sociedade como delinqüente e, posteriormente, passa a se enxergar e agir como tal.

Trazendo tais princípios para o enfoque vitimológico, em especial da vitimização secundária que atinge os policiais em geral, há que se constatar, infelizmente sem muito esforço, a existência de um etiquetamento relacionado à figura do policial.

Esse processo de etiquetamento é verificado quando se impõe ao policial um rótulo, sendo o mesmo enxergado com um “meio-criminoso”, matador, justiceiro, intimidador! Este último rótulo intimidador é extremamente perigoso pois coloca o servidor da carreira policial em grande vulnerabilidade nas hipóteses de decretação de prisão cautelar, em especial nos casos de prisão preventiva.

“Os reflexos sociais e econômicos decorrentes da estigmatização oriunda das prisões cautelares são inúmeras. Como se disse, o sujeito passivo vê reduzidas suas oportunidades, suas alternativas para buscar uma reinserção social ficam escassas, e a sua vida comunitária é seriamente atingida.”

Este é fenômeno verificável, dentre outras situações que se apresentam na dinâmica do cenário social deste profissional, nos decretos de prisão cautelar expedidos contra policiais, inserindo-os em uma dinâmica extremamente cruel pois “na prisão provisória, têm-se os mesmos efeitos da prisionalização ocorrida com o apenado: a adoção de um modus vivendi totalitário e pan-óptico e a sua conseqüente estigmatização social”.

A medida cautelar prisional, instituto do direito processual penal, tem como fundamentos o fumus boni iuris e o periculum libertatis, adicionados a uma das seguintes ocorrências no caso da prisão preventiva: garantia da ordem publica, garantia da ordem econômica, conveniência da instrução criminal, garantia da aplicação da lei penal.

Quanto à garantia da ordem pública, se o crime for grave, “propiciando àqueles que tomam conhecimento da sua realização um forte sentimento de impunidade e de insegurança, cabe ao Judiciário determinar o recolhimento do agente”

“Apura-se o abalo à ordem publica também, mas não somente, pela divulgação que o delito alcança nos meios de comunicação – escrito ou falado.”

Mas, não podemos deixar de consignar que, quando falamos em opinião pública, devemos lembrar que toda opinião é discutível e oscilante, não representando, necessariamente, a verdade. A democracia é marcada pelo exercício do poder pelo povo, mas também é “o regime político baseado na opinião pública: isto significa que não somente os poderosos meios normais de comunicação – os jornais, o rádio e a televisão – devem ser os espontâneos vigilantes da causa democrática mas também os cidadãos comuns.”

Sendo a atuação policial o verdadeiro “telhado de vidro” do Estado, seu braço operacional, que impõe aos súditos seu poder coercitivo, não é difícil entender porque tem a organização policial o fardo pesado sobre si do descontentamento de cidadão com o Estado que tolhe sua liberdade ilimitada.

O Estado impõe sua vontade sobre seus súditos, para impedir uma dinâmica “hobberiana” na sociedade, “Não invariavelmente os casos penais dão visibilidade às violências que negam a idéia Moderna de civilização, defrontando o homem com o bárbaro que nele habita em silêncio, pronto para, a qualquer momento, irromper. São situações caracterizadas pela violência, pelo abuso da força e pelos excessos de poder que geram fascínio nos jovens estudantes de Direito.”

Constata-se, porém, que o mesmo Estado promove um discurso alienante com relação ao seu “braço operacional” como se o mesmo não fosse um de seus órgãos, mas um ente independente que também precisa ser controlado e até combatido pela estrutura estatal!

É impressionante, mas é uma realidade tal engenharia social, positivada dentre outras formas, na política criminal praticada, em especial no que tange à utilização do instrumento da prisão preventiva. Há uma política populista, de espetacularização da prisão de policiais como forma de dar aos súditos uma forma de ver seu rancor contra o Estado saciado! Elementos do populismo (estratégia de manipulação): direcionamento imediato ao povo; possibilidade de manipulação de lealdade da massa dentro de certos limites.

Em virtude de uma política criminal, de uma política de comunicação de massa, etiquetou-se a figura do policial como sendo corrupto e violento, ou seja, um criminoso perigoso. “O que caracteriza uma política criminal populista, portanto, é uma perturbação no processo de comunicação.” Para Habermas, “o foco da investigação passa, com isso, da racionalidade cognitivo-instrumental para a racionalidade comunicativa.”

E este é um fardo que o sistema punitivo coloca sobre a figura do policial, deixando-o sempre fragilizado, em condição de hipossuficiência, enfim tornando-o uma vítima contumaz deste sistema jurídico.

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Introduzindo aspectos do processo de trabalho do policial militar Para que se possa refletir sobre o trabalho PM é necessário explicitar que esta atividade desenvolve um processo de trabalho e, dessa maneira, dissecar o seu desenvolvimento para, posteriormente, refletir sobre o trabalho em si. Nesse sentido, busca-se em Marx (2002), na obra intitulada O Capital, especificamente no volume I, na Parte Terceira do Capítulo V, as bases essenciais para o entendimento das categorias trabalho e processo de trabalho. Para esse autor, o trabalho é um processo do qual participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua ação, põe em movimento as forças naturais do seu corpo com a finalidade de se apropriar dos recursos da natureza, imprimindo-lhes utilidade à vida humana.

Ao se considerar a polícia como profissão, como uma especialização na divisão sociotécnica do trabalho, destaca-se que o policial é um sujeito que desenvolve um processo de trabalho. O trabalho do policial na sociedade produz um valor de uso (o serviço de segurança pública oferecido à sociedade) e um valor de troca (preço pago pelo seu empregador, o Estado, pelo seu serviço). Tendo em vista as contribuições marxistas que indicam que um processo de trabalho é composto pelo trabalho em si, pelo objeto e meios pelos quais o trabalhador realiza a sua atividade, buscar-se-á, conforme já realizado em outro momento (Fraga, 2005), descrever os elementos constitutivos do processo de trabalho do policial militar:

Veja, no link ARTIGOS, a íntegra do excelente texto de autoria de Cristina K. Fraga.

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jul/09

12

Vítima: policial.

“O cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) ÊNio Roberto Santiago, de 33 anos, baleado na cabeça na manhã de anteontem ao tentar impedir que um casal tivesse seu carro roubado, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, morreu nesta tarde no Hospital Souza Aguiar.

Santiago estava trabalhando na segurança do tenente-coronel Alberto Pinheiro Neto, principal assessor do comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte. Neto, que esteve à frente do Bope até quinta-feira, não estava no local do tiroteio.

Santiago foi ferido por volta das 7h30, quando estava na movimentada esquina da ruas São Francisco Xavier e Conde de Bonfim. Ele estava no carro descaracterizado da polícia, aguardando Pinheiro Neto, quando viu o momento em que dois homens anunciaram o assalto a um casal num Gol preto, parado no sinal fechado. Santiago reagiu, mas comparsas dos assaltantes fizeram cinco disparos na direção do cabo. Um dos tiros atingiu-o na cabeça.

Os criminosos fugiram no carro do casal. Houve pânico e correria dos pedestres que estavam próximos do local. Santiago passou por nove horas de cirurgia e, desde que chegou ao hospital, seu estado era considerado gravíssimo.” (fonte: Agência Estado).

Este triste e lamentável acontecimento reforça a constatação de que a vitimização policial primária, aquela na qual o policial é vítima direta da ação do criminoso, é uma constante em nosso país, em números bastante superiores do que a média mundial.

Fala-se muito que as organizações policiais brasileiras são as que “mais matam no mundo”, o que até pode ser verdade. Mas, tais comentários sempre são proferidos com base em estatísticas isoladas, sem uma análise de todo o contesto e dos demais dados estatísticos relacionados.

O que se pode constatar é que os policiais brasileiros, sem dúvida alguma, estão entre os que mais morrem em todo o mundo! Independentemente do tipo de preparação, do treinamento, da sua capacidade de sobrevivência em ambiente hostil, o policial está sempre na iminência de ser vitimado.

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