Durante este curto período no qual iniciamos nosso blog, várias mensagens, das mais diversas opiniões, têm sido enviadas pelos leitores. Interessante é a constatação decorrente dos comentários postados, de algumas teses que já foram expostas aqui no site.
Já foi consignado que uma forma de vitimização do servidor que atua na organização policial é o etiquetamento, uma das formas de vitimização secundária. Tal fato ficou bastante perceptível nos comentários recebidos que questionam a legitimidade das teses aqui divulgadas, pois acreditam tais leitores que o policial “é pago para isso”, que “morrer faz parte de seu trabalho”, que “não cabe se falar em vitimização de policial, pois ele ganha do governo para isso”, que “vítimas são as outras pessoas que morrem, os policiais não podem reclamar pois são pagos para…”
Tais posições são legítimas e o debate é justamente a proposta maior deste espaço virtual. Viver é contraditar. Sem o debate, sem o confronto de idéias e de ideais, não se pode acreditar em uma evolução robusta da sociedade, nem dos atores sociais que impulsionam as transformações necessárias. Nos campos da criminologia, da vitimologia, da sociologia, da psicologia e da política criminal, este tema é destacadamente interessante.
Em certa ocasião, no ano de 2008, um general, comandante de uma região militar, falou sobre a polêmica de se colocar o Exército nas ruas para combater o crime. Foi muito interessante e pedagógica a palestra daquele general que começou pela apresentação de um trecho da série Band of Brothers. Tal produção, exibida em um canal de tv por assinatura, tem como tema a atuação de uma companhia de infantaria na Segunda Guerra Mundial. Esta produção de Tom Hanks e Spielberg é extremamente rica em detalhes, com profundo referencial histórico, mostrando toda a epopéia daquela companhia desde o treinamento de seus soldados até sua atuação no campo de batalha.
Após a exibição do trecho selecionado, no qual os soldados tomavam uma pequena cidade européia, conquistando casa à casa num combate urbano intenso, o general iniciou sua palestra. Suas primeiras palavras foram: “As pessoas, equivocadamente, pensam que o soldado é aquele homem treinado para morrer pela pátria, mas isto não é verdade. O soldado é aquele homem treinado para matar pela pátria!” Continuou o general a expor, durante sua palestra, a dinâmica que envolve colocar forças de combate, treinadas para elimimar os inimigos, mesmo sob condições das mais adversas, para lidar no dia-a-dia com a população e combater criminosos.
Observando o acontecido na cidade do Rio de Janeiro no final de março, quando os combates entre bandidos e policiais percorreram vários bairros da cidade durante horas, percebe-se que os enfrentamentos que lá aconteceram não estão de forma alguma distantes dos enfretamentos em perímetro urbano que ocorrem em diversas outras cidades ao redor do planeta, salvo a diferença que nestes outros locais tais combates são denominados guerra, seja ela civil ou não!
Quando se fala em grupos armados, compostos por 15, 20 ou até 30 pessoas, portando fuzis de calibre 7.62mm (mais potentes do que o calibre 556mm, utilizado pelos fuzis M-16 dos soldados americanos) deslocando-se pelas ruas, cruzando diversos bairros da cidade, espalhando o terror e o pânico entre os cidadãos de bem, e enfrentando as forças de segurança, que chegam a mobilizar centenas de homens para conter a situação, é impossível não pensar em guerra! Combates desta magnitude não podem ser rotulados como se fossem uma simples perseguição policial a um criminoso que acaba de furtar um carro.
Mas, o que se destaca é que muitas pessoas entendem que o servidor público que trabalha na organização policial é “pago para morrer”. Quando se pensa em uma polícia para “proteger e servir”, não se pensa em uma polícia que trava combates urbanos de uma magnitude bélica como ocorre aqui no Brasil! Os policiais tem sim o dever de enfrentar o perigo, assim como tem este dever os soldados que defendem nossa nação, nosso país, de uma ameaça de invasão estrangeira. Mas, ambos devem ser treinados para neutralizar o inimigo e voltar para casa, para suas famílias.
Porém, é muito complicado trazer este entendimento para o debate aberto na sociedade: “o policial deve ser treinado para matar em combate”. As pessoas entendem que o policial deve ser treinado para prender. Em meio a um confronto tão violento como o que aconteceu nestes dias atrás, no Rio de janeiro, o policial deveria estar preocupado em capturar os membros daqueles grupos armados? Caso morram em combate, devem saber que é para isto que são pagos: para prender, ou para morrer?
O que precisa ficar bem claro é que ninguém é pago para morrer! Nem o soldado, nem o médico, nem o professor, nem o juiz, nem o advogado, nem o motorista de ônibus, nem o comerciante, nem o comerciário, nem o banqueiro, nem o bancário, nem o policial.
1 Comentário for Pagos para Morrer – I
Angelica | 22 de maio de 2009 at 09:23


Sou advogada e esposa de policial e, infelizmente, até mesmo entre os meus colegas tem-se o pensamento que os policiais devem morrer em prol de nossa pátria e essas pessoas e tantas outras se esquecem que o policial tem a sua vida, a sua família e que deve também zelar pela sua própria vida.
Deve-se se priorizar outros valores, tais como educação, saúde, condições dignas de sobrevivência, que são direitos constitucionais garantidos e, no entanto, esquecidos pela sociedade, que na hora de avaliar tal questão usa de uma imparcialidade fenomenal.
Muito proveitoso esse site e espero que a sociedade possa evoluir e entender esse conceito, inclusive para o seu próprio bem estar.